7 de julho de 2010

Lucidez Perigosa [Clarice Lispector]


Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim, como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio.
 E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. 
Além do que: que faço dessa lucidez? 
Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes. Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. 
Eu consisto, eu consisto, amém. 

Clarice Lispector