23 de agosto de 2010

Espero. [Camila Paier]

Se quer me ver tensa, nervosa e ansiosa, diga apenas um verbo, e sete letras: esperar. Uma ligação, confirmação, algum resultado, numa fila, ou num banco da praça. Nada me deixa tão louca e fora de mim, do que esse tempo que se prolonga, e parece não passar nunca. Passa, eu sei que passa, porém enquanto meu pensamento se bloqueia numa só esperançosa ação, viro quase obsessiva. E nem me adianta dormir, praticar algum esporte ou tentar fazer tricô. De repente, volta à mente aquilo que fingia ter esquecido, e me vejo tirando com a boca a cutícula, tremelicando a perna ininterruptamente e mordendo de leve o lábio, que é pra ver se o corpo se ocupa, e a mente se distrai, o mundo se aquieta. Orgulhosa de mim, e do meu feito em permanecer calma e complacente, serena e harmoniosa por dias e mais dias, eu sabia que não duraria muito. Explodiria, como bomba-relógio escondida no peito, essa paz acumulada em palavras, que é como quase sempre acontece, no meu roteiro. Não posso ir guardando opiniões, sentimentos e frases premeditadas, que quando escorro, de nascente se faz rio; é uma enxurrada. O que me doía então, era esse não saber de coisa alguma - e ao mesmo tempo, achar saber de tudo. Essas promessas de volta perfeita, e de ida saudosa. Que no fundo sabemos que nem vai acontecer, mas alimentamos qualquer centelha teimosa, que insiste em não se propagar de uma vez. As pessoas espantadas, com a minha calma e complacência, toda essa comodidade que nunca foi minha, e que era apenas tatuagem temporária - bonita enquanto durou, mas que foi saindo de mim, e dando espaço à minha real inquietude. Então, como quem aguarda o ataque, eu espreitava a hora certa de atacar. Adiantada como me é rotineiro, dei o bote antes da temida hora certa, e como sempre, deixei vir à tona toda e qualquer verdade, que andava em mim submersa. Foi libertador? Foi. Necessário enquanto pode, e suntuoso, quando ainda era real. Agora talvez se entorne em ser passado, e me resta não pensar demais, pra não endoidecer, de vez. Sair, e aproveitar a vida. Em alguma noite, qualquer festa, no shopping ou no calçadão. No frio desse inverno rigoroso, ou enquanto a primavera adentrar. Na fila, que é pra onde volto, depois de tanto tumulto e algumas lições: na linha indiana, de quem merece alguma sorte e um tempo final de descanso, que é pra onde volto com alívio e alguma paciência restante. Que não demore, apenas isso - esperar cansa, aguentar o tédio é tarefa para doentes. Daqui a pouco surto, e é só esperar o vulcão que aqui já entra em erupção. Aleluia!



Camila Paier - @camilapaier