20 de setembro de 2010

A imitação da Rosa [Clarice Lispector]

Mas à luz desta sala as rosas estavam a sua completa e tranqüila beleza.
Nunca vi rosas tão bonitas, pensou com curiosidade.
E, como se não tivesse acabado de pensar exatamente isso, vagamente consciente de que acabara de pensar exatamente isso e passando por cima do embaraço em se reconhecer um pouco cacete, pensou numa etapa mais nova de surpresa: "Sinceramente, nunca vi rosas tão bonitas". Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obrigada a interromper-se com a mesma exclamação de curiosidade submissa: como são lindas!
(...)Mas, sem saber por quê, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh, nada demais, apenas acontecia que a beleza incomodava.

Clarice Lispector