24 de outubro de 2010

Metade [Oswaldo Montenegro]

Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio,
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca,
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que tristeza,
Que a mulher que amo seja pra sempre amada, mesmo que distante,
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos,
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço,
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada,
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste 
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável,
Que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso que eu me lembro ter dado na infância,
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade, não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito,
E que o teu silêncio me fale cada vez mais,
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba,
E que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer,
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor
E a outra metade...
Também.

Oswaldo Montenegro